sexta-feira, 4 de abril de 2008

A HISTORIA DA COMPRA E RESTAURAÇÃO DO JEEP DO ARTHUR




Sempre quis introduzir novamente o Jeep na nossa família, e as razões podem ser conferidas lendo a “História do Jeep na Família Pires”, que encartamos no início deste livro.
Os anos foram se passando e pouco a pouco íamos construindo as bases para a nossa família, sempre com muita luta, tanto minha como da mamãe.
Chegou o tempo da faculdade, depois vieram o Arthur e a Laís, mas a idéia nunca foi abandonada, ela só era postergada para o momento certo.
Quando chegamos em Blumenau em Fevereiro de 1995, pudemos conferir que haviam vários Jeep´s rodando pela região, com vários Jeep´s Clubes, mas ainda não era a hora certa, por motivos óbvios ($$$).
Em 2003, o Arthur completaria 15 anos e seria uma data que poderia ser o marco para que o sonho se realizasse.
Convencer a mamãe eu diria que não foi difícil, embora tivemos que, digamos, dizer a ela que seria um presente especial para o Arthur e ela concordou meio desconfiada (mas não contamos a ela naquele momento ainda, que haveria uma restauração $$$$).
Muito bem, passamos então para a fase de procura do Jeep.
Teria de ser um Jeep que não tivesse sido detonado em trilhas, e sabíamos que não seria tarefa fácil achá-lo, pois a maioria dos Jeep´s no Brasil são, infelizmente, judiados e usados á exaustão para brincadeiras em trilhas que detonam o veículo e outros, que são completamente desfigurados de sua forma original.
Fizemos alguns contatos que ficaram de nos avisar quando aparecesse um Jeep dentro das condições que havíamos solicitado.
Um dia, um telefonema nos dizia que haviam achado um Jeep, que estava parado há pelo menos 5 anos em uma garagem e que o dono havia resolvido vendê-lo, pois iria precisar do galpão para expandir sua gráfica.
Peguei o Arthur e fomos lá ver o bichinho. Estava coberto com uma lona tipo encerado, pneus murchos, totalmente empoeirado.
Olhamos e vimos que era um Jeep original, não tinha sido modificado e nem tinha sinais de trilha.
Era usado, muito usado, mas não em trilhas e sim em viagens pelo interior do estado e no interior do sítio que o dono da gráfica tinha, mas que, por longos 5 anos, permanecia parado, sem uso.
O valor que ele pedia era R$ 10.000,00, equivalente a U$ 5.000 na época. Fechamos o negócio na hora, até porque, sentimos que havia uma certa dúvida em vendê-lo ou não, já que o Jeep fazia parte da família dele por mais de 20 anos.
Então, após 40 anos, tínhamos novamente um Jeep na família Pires.
Voltamos e fizemos o cheque que foi entregue ao intermediário que fez o negócio, que ficou encarregado de pagar ao dono do Jeep e também de rebocá-lo até a sua revenda de carros e dar pelo menos uma lavada no bicho e onde ficamos de ir buscá-lo no dia seguinte á tarde.
Liguei então para o dono da garagem para saber se o Jeep estava pronto e se tinha dado tudo certo e, surpresa, ele disse que o homem queria desfazer o negócio, pois tinha se arrependido da venda, mas que ele mesmo o contestou, visto que havíamos fechado o negócio e eu inclusive já havia pago.
Me ligou depois de umas 4 horas, dizendo que o Jeep já se encontrava em sua garagem e que tudo havia dado certo, o Jeep era definitivamente nosso.
Fomos eu e o Arthur buscá-lo e enquanto isso, já havíamos combinado de levar o Jeep diretamente para uma oficina de restauração, para que pudéssemos ter o Jeep em condições de rodar e para que pudessem ser reparados os danos causados pelo tempo, que não eram poucos.
E lá fomos nós levar o Jeep até a oficina da Savel Veículos, aqui em Blumenau, onde o Sr Sílvio nos esperava para a avaliação inicial.
Ao ver o Jeep o Silvio se mostrou receoso de fazer o serviço, pois a especialidade deles era reparos de carros novos com pequenas batidas, mas aceitou a tarefa com uma ressalva: que déssemos o tempo suficiente a ele e que não pressionássemos por prazo, visto que faria o serviço nas horas vagas.
O Jeep foi então desmontado totalmente, confesso que deu medo ao ver o estado inicial do bicho.
E assim se passaram longos 8 meses desde que o Jeep deu entrada na oficina da Savel.
Eu e o Arthur fizemos pelo menos umas 30 visitas para ver o andamento e pudemos sentir e ver toda a evolução e envolvimento dos mecânicos na restauração do bicho, passo a passo, sem pressa.
No começo, todos demonstraram até certa má vontade, mas á medida que o serviço ia evoluindo, sentimos que toda a oficina estava querendo ver o resultado final do trabalho.
E assim o Jeep foi desmontado totalmente, lataria foi totalmente restaurada, jateada, repintada em câmera de pintura e tudo. Motor foi retificado, freios, pneus, parte elétrica, bancos foram adquiridos no ferro velho e mandados para serem cobertos, tapete, tanque foi feito pelo amigo Domingos em aço inox, cambio foi revisado, faróis e lanternas novos, enfim, o Jeep ia pouco a pouco sendo recuperado.
Gastamos ao todo R$ 6.000,00 ou U$ 3.000 na oficina da Savel, mais R$ 1.200 ou U$ 600 no motor, mais R$ 2.000 ou U$ 1.000 entre elétrica, bancos, santo Antonio, mais R$ 600 ou U$ 200 na capota e mais R$ 1000 ou U$ 500 com os 5 pneus novos.
Finalmente depois de 1 ano, ficou pronto e fomos buscar o Jeep que foi dado ao Arthur de presente nos seus 15 anos, no ano de 2003.
Foi nele que o Arthur aprendeu a dirigir em incontáveis aulas de volante que fizemos em um circuito especialmente construído no antigo reflorestamento da empresa, onde ele dirigia e eu ficava sentado á sombra, tomando uma cerveja que levávamos em uma caixa pequena de isopor, sempre aos domingos pela manhã.

E foi assim que adquirimos, recuperamos e trouxemos de volta o Jeep para a nossa família.
A Cê não sabe ainda ao certo o quanto gastei na recuperação do Jeep e certamente vai saber agora, lendo o texto.
Chiiii, vai sobrar prá mim...... um beijo Cê ....



Blumenau, SC, abril de 08

quinta-feira, 3 de abril de 2008

A História do Jeep na Família PIRES





Querido Arthur,
Nos idos de 1950, o seu avô José e sua avó Lidia, iniciavam suas vidas como casal e construíram sua casa no sítio do seu bisavô Luis, que localizava-se a aproximadamente uns 20 km do centro de Itu, em uma localidade denominada Taperinha, que ficava depois do sítio dos Candiani e antes do sítio dos Morelli.
Viviam todos como uma grande família, e no sítio, além do seus avós, moravam também seu bisavô Luis Rodrigues e sua bisavó Cecília, além dos colonos que ocupavam diversas casas espalhadas pelo sítio e cultivavam as terras em sistema “de meia”, ou seja, 50% do que colhiam ficava com o dono da terra e 50% com os colonos. Não é como hoje, em que nem existem mais donos de terra dispostos a ceder suas terras para outros menos favorecidos possam plantar.
Os sítios vizinhos, todos eles eram ocupados por parentes e amigos que cultivavam uma amizade intensa e leal entre si.
Eram da família Candiani, Cristofoletti, Morelli, Vaz, Zanoni, Braganholo, Franchischinelli , entre outros que não me lembro mais. Todos Italianos, gente boa, gente feliz, gente honesta.
Foi assim que seu avô (Pires) conheceu a sua avó (Candiani) e se casaram.
Eram todos amigos, do tipo de que, quando um matava um porco, separava para o vizinho, não os ossos e as sobras das carnes, mas tinha-se o costume de presentear o vizinho com o melhor do porco, como o lombo ou o pernil.
Da mesma forma, seus avós ao receberem visitas, ou mesmo sem receber, levavam até o sitio vizinho não a sobra da colheita de uva, mas os melhores cachos das melhores uvas que eram colhidas. E sempre voltavam com alguma coisa, seja queijo, leite, manga e outros.
Era uma questão de respeito, de pura amizade sem qualquer interesse.
O sítio do seu avô era um sítio lindíssimo, e seu avô era um grande empreendedor.
Vida difícil, mas ele diversificava muito a produção do sítio, e lá cultivava arroz, alho, cebola, café, tinha cavalos, burros, vacas para leite, porcos, galinha. Nunca vi seu avô sem dinheiro, tinha pouco, mas sempre tinha.
Mais tarde, lá pelos idos de 1962/1963 ele iniciou um grande empreendimento de criação de frangos para abate, o que não deu certo, mas eu ainda me lembro dos enormes galpões que foram utilizados para a criação e onde brincávamos quando criança. Chamávamos os galpões de “ranchão”.
Tinha também o “ranchinho”, que era menor e era onde ele guardava os vinhos que fazia e que ninguém podia chegar perto nem fazer barulho, pois segundo ele dizia, “azedava o vinho”. Prá mim, ele dizia isso prá ninguém ir lá beber o vinho dele
E tinha também a “tuia”, que é onde ele guardava o arroz, o café e o milho que colhia e ficava guardado até os preços subirem para então vender no mercado em Itu.
Anos depois, com a queda de preços do café que houve na época, ele iniciou a plantação de uva, da espécie Niágara, passando a ser um produtor de grande qualidade e chegou inclusive a fazer um pouco de vinho, somente para o gasto da família.
A produção de uva ele vendia para feirantes no mercado municipal de Itu e também, ele vendia á beira da Rodovia Castelo Branco, onde ele lotava a caminhonete no domingo de manhã e ficava o domingo inteiro com sua avó e só voltava para casa, quando todas as caixas haviam sido vendidas.
O sítio era cortado por 2 rios, e em um deles, seu avô instalou um sofisticado sistema de bombeamento de água, que abastecia todas as casas do sítio através de uma bomba movida a pressão d’agua, sem qualquer uso de energia elétrica, a bomba chamava-se “bomba de martelo”.
Até hoje, ao fechar os olhos, posso escutar o som que aquela bomba fazia noite e dia, com um som de batida contínua e com isso, bombeando água potável para todos nós.
Naquela época, ter um carro era um enorme diferencial e eu me lembro como se fosse hoje, do Jeep que seu avô possuía, sendo que aquele era o primeiro veículo que nossa família teve e foi aquele o primeiro veículo que eu andei na vida.
O Jeep era Willys, acho que ano 1965 ou 1966, não tenho certeza disso. A cor era marrom claro e nunca vou me esquecer do barulho dos pneus que ele fazia quando vínhamos para a cidade aos sábados fazer compras e eu viajava no banco da frente, com a cabeça para fora, e ficava olhando a roda da frente girar e ouvindo aquele zumbindo que o pneu original do Jeep faz ao andar no asfalto.
Nunca irei me esquecer também da minha primeira grande viagem da vida, em um passeio que fizemos com o Jeep até Pirapora do Bom Jesus, e naquele dia, sua bisavó Cecília estava junto e eu me sentei com ela no banco de trás do Jeep.
Foi um dos únicos passeios que eu me lembro que fizemos assim mais longe, e me lembro como se fosse hoje dos preparativos que fizemos, como preparar o almoço: frango, farofa, pão, doces, e comemos tudo aquilo ás sombras de enormes bambuzais que se situavam ás margens da Rodovia dos Romeiros que liga Pirapora a Itu.
Em me esforçando um pouco, posso lhe garantir que sinto o cheiro daquela comida maravilhosa que sua bisavó fez.
Nunca vou me esquecer também de uma façanha do Jeep e do seu avô.
Foi no casamento de minha Tia Tica, irmã de sua avó. O casamento foi um acontecimento na capela que ficava no sítio do seu bisavô Mingo Candiani. Todos foram ao casamento e acho que deveriam ter ido umas 200 pessoas, a maioria vinda da cidade, com carros menores e alguns caminhões.
Chovia, mas chovia como nunca eu tinha visto antes. Já era tarde, acho que umas 7 ou 8 horas da noite quando a cerimônia terminou e todos se preparavam para a grande festa, como era de costume de todos que casavam naquela época.
Para chegar ao local da festa, tinha de atravessar um pequeno riacho, e á medida em que chovia mais e mais, a água do riacho subiu, fazendo com que praticamente ninguém conseguisse atravessar.
E aí, chegamos nós com nosso Jeepinho. Eu me lembro que eu estava muito arrumado, até tinha tomado banho. (no sítio, nós só tomávamos banho aos sábados, sendo que este costume era comum para todos os moradores de sítios naquela época).
Seu avô chegou, parou á beira do rio e calmamente engatou o 4 x 4.
Toda aquela multidão ali parada, tomando chuva e molhados como uns pintos, e nós dentro do Jeepinho, só esperando meu pai terminar de girar as borboletas da roda, engatando de vez a roda livre.
Depois, calmamente ele engatou uma primeira e tocou o pé.
Passou sem problema algum, e todos aplaudiram a façanha, foi maravilhoso filho.
O seu avô nos levou para a casa onde seria realizada a festa e voltou, sabe para que? Para buscar os noivos que estavam do outro lado do rio sem poder passar. Sim, o noivo e a noiva chegaram para o local da festa dentro do nosso Jeep!!!
Depois disso seu avô se dispôs a ajudar todo mundo a atravessar o rio e lá ficou por mais de 2 horas, indo e voltando pelo riacho adentro, passando todo mundo e o Jeep dele chegou até a rebocar um caminhão, que ficou atolado ao tentar atravessar o rio e, o Jeep, forte e valente, arrastou todo mundo.
Se quiser conferir esta história, pode perguntar a minha tia Tica que ela vai confirmar a você assim como o seu tio Darcy e o tio Orlando que devem se lembrar desta passagem maravilhosa de nossa infância.
Não sei o porquê seu avô o vendeu, mas o Jeep foi nosso primeiro carro, motivo de orgulho, motivo agora de grande saudade.
Filho, ao te dar este Jeep, estou resgatando um pouco da história da nossa família e um pouco daquilo que vivi no passado, um passado maravilhoso, cheio de conquistas, cheio de trabalho, cheio de alegrias, cheio de saudades.
Que este Jeep possa ficar contigo por toda a vida e que possa trazer a você num futuro distante, as mesmas lembranças que me trazem agora, ao relembrar minha infância lá pelos idos de 1966/1967, naquele sítio que vivi parte de minha vida.
Foi comprado de coração, foi restaurado de coração e é dado a você de coração, se puder, fique com ele para sempre, se não puder, eu vou entender.
Ao entrar dentro dele, é como se eu estivesse entrando naquele Jeep do seu avô Zé, aquele valente Jeepinho que me fez recordar de tudo isso agora.
Felicidades com ele meu filho, cuidado e juízo, e que Deus te proteja.
Papai, primavera de 2008, em Blumenau SC.