sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

O NATAL DE MARIANA


A história que vou contar me foi contada há alguns anos atrás por um amigo que dedicou e ainda dedica a sua vida pela vida do próximo.
Admiro muito esta pessoa, pois hoje em dia, não se acham muitos que se dispõe a trocar o conforto de casa ou mesmo, que se dispõe a abrir mão de uma carreira profissional e mais ainda, da família ou da formação de uma, para simplesmente abandonar tudo e se dedicar a servir ao próximo.
Vida dura, vida difícil.
Tive o prazer em conhecê-lo aqui na nossa cidade e todo final ano nos encontramos e ele nos premia com sua presença em nossa festa de encerramento quando nos dá uma santa benção de Natal.

A história que vou contar abaixo foi postada pois achei que poderia postá-la aqui neste bloog neste Natal, para que mais pessoas pudessem lê-la e também sentir um pouco mais próximo a presença Daquele que comemoramos o aniversário neste mês de Dezembro.

A história se passou num Hospital público em S.Paulo, na época em que ele lá servia como padre, e na sua humildade e solidariedade, havia justamente escolhido a área de soropositivos do hospital, e como me disse, era ali que poderia levar uma palavra amiga a muitos daqueles que tinham tão somente alguns minutos de vida nesta terra.
Sofrimento e dor, lágrimas e paixões, arrependimentos, choros e perdão era a rotina enfrentada por ele no dia a dia.

Dentre tantas histórias de vida, uma delas ele nunca esqueceu, a história da Mariana.


A Mariana havia nascido de pais soropositivos, e seu pai nunca ninguém soube quem era.
Sua mãe, na pobreza e na humildade que tornam todas as mães Santas, deu a luz naquele hospital a uma linda menina e logo depois, também partiu para junto de Deus, deixando Mariana no hospital ainda muito pequena, porém cheia de vida.
Olhos escuros, olhar aguçado, queria ver todos e virando seus olhinhos pretos e procurava entender o que se passava ao redor daquele berçário cheio de crianças cheias de vida e que a todo instante, eram abraçadas e levadas pelos seus pais com alegria.

Através dos vidros que isolavam o berçário, aquelas crianças eram observadas por seus pais que dias depois, vinham buscá-las sempre com festa e sorrisos.
Menos a Mariana, que ia ficando e ficando, afinal, quem viria buscá-la se não existia ninguém neste mundo que a conhecesse?
O Hospital, por regra não permitia que recén nascidos permanecessem por mais tempo do que o necessário na internação, mas onde levar Mariana?
Ela não poderia ser simplesmente enviada a um órgão publico para adoção, afinal, ela sendo também soropositiva seria muito mais difícil e penosa sua adoção.
O que fazer então com Mariana?
Sem solução á vista e contrariando as regras, ela foi adotada por todos os funcionários do hospital.
De manhã, ficava junto as arrumadeiras, que a levavam de quarto em quarto, davam banho, comida, á tarde era vez das cozinheiras e pessoal da limpeza, á noite era vez das enermeidas . Comia e dormia sempre em lugares diferentes, era cuidada como ninguém e recebia um amor imenso de todos os funcionários daquele hospital.
Por longos 3 anos, ela foi mantida no hospital sem que ninguém soubesse.
Era amada, cuidada, e recebia de todos tudo aquilo que sua mãe não conseguiu dar a ela em vida.
Era noite de Natal.....
Como sempre, uma missa de Natal era celebrada na capela do hospital.
Missa concorrida, os internados faziam fila para entrar e receber a benção de Natal, que sempre era dada ao final da cerimônia com o Menino Jesus na manjedoura.
E naquela noite, a capela estava lotada, gente e mais gente se acumulava entre bancos e corredores, gente em pé e até sentadas no chão.
O bispo, rezou uma missa linda e todos aguardavam ansiosos a benção de Natal.
Mas, cadê o Menino Jesus na manjedoura? Onde está o menino Jesus que aqui estava?
Por um mistério que ninguém conseguia explicar, o Menino Jesus havia desaparecido da manjedoura e, sem ele, como dar a benção ao povo que aguardava?
E ai alguém se lembrou da Mariana.
Sim !!! a Mariana, por que não?
Ela seria o Menino Jesus na manjedoura naquela noite especial de Natal. Ela seria a benção de Deus a todos os presentes.
Rapidamente começaram a procurar a Mariana e rapidamente lá estava ela, deitada na manjedoura.
Com seus olhinhos pretos, olhava para todos os lados, feliz da vida por lá estar.
O bispo, erguendo a manjedoura com a Mariana dentro, deu a benção ao povo.
E foi a benção mais linda que haviam recebido em todos aqueles anos.
Ao baixar a manjedoura, Mariana lá estava.
Seu corpinho, imóvel, já sem vida.
Naquele exato instante da benção de Natal em que a manjedoura era erguida, Mariana subia aos céus.......


Que neste Natal de 2007, tenhamos no coração o amor e o perdão como símbolos máximos de nossas festas.
E que a Mariana possa nos abençoar também, afinal, um dia ela substituiu o próprio menino Jesus aqui na terra e, hoje, está ao lado Dele lá no céu.

Feliz Natal
dezembro de 07

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

QUANDO EU PASSAR EM FRENTE AO TEATRO



Hoje foi o ultimo espetáculo que assistimos dela, e pudemos aplaudi-la de pé pela ultima vez, e a aplaudimos como nunca.
Quase menina moça, se destacava entre as outras e podíamos sentir desde o palco, a sua vibração nesta sua ultima apresentação.
E lembrar de quando pequena, sempre exigente consigo mesma, não se permitia errar, cuidava de todas, cuidava dos ritmos, queria a perfeição do grupo.
Treinos e mais treinos, horas e mais horas na busca constante pela perfeição dos movimentos, que sempre vinha.
Que gostoso que era, ao final de cada noite ir buscá-la e ganhar um beijo gostoso no rosto quando ela entrava no carro, e ouvir aquele : Oi pai, tudo bem?. Com foi o seu dia ?
Por mais difícil que tivesse sido meu dia, a resposta a tão adorável pergunta era:
- Oi filha, meu dia foi ótimo. E como foi o seu treino?
E ela: - Não é treino pai, é ensaio.......
Sempre pra cima, não me esquecerei jamais da sua agitação e do suor que carregava no corpo pelo treino duro que acabara minutos antes e nunca me esquecerei da sua paixão pelo sapateado.
Nunca me esquecerei também o dia em que fui buscá-la de moto. Ela, chorando que estava, seguramente por algo que não dera certo, me disse que naquele dia, o melhor que havia acontecido a ela foi eu tê-la buscado de moto, e com o vento no rosto, foi acalmando o seu coração.
Ao final de cada ano, vinham os espetáculos, sempre 3 dias de pura emoção.
A sessão de maquiagem, a tensão momentos antes, o barulho dos camarins, o teatro cheio, crianças, muitas crianças, pais, avós, tios, enfim, todos marcavam presença e vinham ver o resultado de mais um ano de intensa dedicação.
Como esquecer a entrega dos bouquês que sempre fazíamos ao início de cada primeiro dia de apresentação, e como nos esqueceremos dela, que ao final do show, vinha caminhando em nossa direção sorridente, carregando seu buquêt de flores e feliz da vida, satisfeita pelo resultado apresentado.
E a cada ano, fomos notando a evolução que vinha de seus pés, de seus movimentos, de seu prazer em dançar.
Hoje, ao dar o ultimo passo, ao fazer o ultimo movimento, o ultimo som que veio daquele palco, não contive minhas lágrimas, lágrimas de pura emoção.
A imagem do palco se fechando marcou como nunca este período maravilhoso em que vi minha filha dançar no Teatro Carlos Gomes, aqui em nossa cidade.
Que a dança que encantou a todos nós possa significar para você minha filha, muito mais do que espetáculos, que possa significar a você que somente com muito suor e determinação, se alcançam as verdadeiras vitórias e que estas estão acima de enganações e trapaças.
Você já é uma vencedora, e pode dar exemplo a tanta gente que nada quer da vida, que não valoriza o esforço e que não sabe o quanto difícil é atingir a perfeição.
A mim, só me resta agora passar em frente a aquele teatro e lembrar com muitas saudades e poder dizer :
- Um dia, minha filha aqui dançou, e dançou como nunca !
E eu, tive a felicidade de poder aplaudi-la por 10 anos seguidos, sem nunca ter pensado que um dia, seu sapato iria silenciar......e hoje ele silenciou.....
Que a dança da vida possa um dia te levar de volta ao palco e que eu possa estar novamente lá para te aplaudir.
E vou aplaudir como nunca !

Papai
Natal de 2007.